Brasil lidera cirurgias plásticas no mundo: o que os números da ISAPS 2024 revelam sobre a cultura estética brasileira e a importância da qualificação do cirurgião
Os números do levantamento global da ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery) referentes a 2024 confirmam uma posição que o Brasil já ocupa há anos: o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo. Segundo a SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), com base nesse mesmo levantamento, foram cerca de 2,35 milhões de cirurgias plásticas realizadas no Brasil em 2024, número que ultrapassa 3,1 milhões quando somados procedimentos minimamente invasivos, como toxina botulínica e preenchimentos.
Esse volume não é um dado isolado. A pesquisa global da ISAPS registrou mais de 17,4 milhões de procedimentos cirúrgicos e 20,5 milhões de não cirúrgicos realizados no mundo em 2024, com a blefaroplastia superando a lipoaspiração como a cirurgia mais realizada globalmente pela primeira vez na série histórica do levantamento. Na minha experiência, observo que esse tipo de mudança no ranking mundial reflete algo que já era perceptível na prática clínica: o interesse crescente por procedimentos faciais, muitas vezes buscados em conjunto com ou em substituição a intervenções corporais mais tradicionais.
Por que o Brasil concentra uma parcela tão expressiva desse total global? Não existe uma resposta única, mas alguns fatores costumam aparecer na literatura e no debate entre especialistas: a cultura estética brasileira historicamente valoriza a discussão aberta sobre o corpo, o acesso à cirurgia plástica se ampliou nas últimas décadas em diferentes faixas de renda, e o país conta com um número relevante de cirurgiões formados dentro de programas de residência reconhecidos. Na minha experiência de consultório, percebo que grande parte dos pacientes chega à consulta já informada sobre riscos e possibilidades — o que considero um reflexo direto dessa naturalização do tema no país.
Vale contextualizar também um movimento observado pela ASPS (American Society of Plastic Surgeons) em seu relatório estatístico de 2024: o uso disseminado de medicamentos GLP-1 (como os análogos usados para emagrecimento) tem impulsionado a busca por procedimentos como o facelift, já que a perda rápida de peso pode esvaziar o volume facial, inclusive em pacientes mais jovens do que o perfil tradicional. O mesmo relatório aponta que os homens representaram 7% dos pacientes de cirurgia plástica em 2024, com a redução mamária masculina (tratamento de ginecomastia) registrando o maior crescimento entre os procedimentos masculinos — parte desse aumento também associada ao excesso de pele após emagrecimento com GLP-1. Na minha prática, tenho notado um crescimento real na procura masculina por avaliação, muitas vezes motivada justamente por mudanças corporais decorrentes de perda de peso significativa.
Diante de um volume tão expressivo de procedimentos realizados no país, um ponto merece atenção redobrada por parte de quem considera se submeter a uma cirurgia plástica: a qualificação do profissional. Título de especialista pela SBCP, registro de qualificação de especialista (RQE) junto ao CRM e formação em residência médica reconhecida são critérios objetivos e verificáveis — não dependem de opinião, mas de documentação pública. Na minha experiência, quanto maior a procura por um determinado procedimento, mais importante se torna reforçar, na consulta inicial, que a decisão não deve se basear apenas em popularidade da técnica, mas na avaliação individual de indicação, técnica cirúrgica e histórico do cirurgião responsável.
Os números da ISAPS e da SBCP mostram uma realidade estatística consolidada: o Brasil ocupa uma posição de destaque global em volume de cirurgias plásticas. Cabe a cada paciente, no entanto, entender que esse contexto não substitui a avaliação individual — cada caso tem indicações, riscos e expectativas próprias, que só uma consulta presencial permite esclarecer adequadamente.
Dr. Filipe Canal Moura
CRM-ES 10568 | RQE 10249