Explante de silicone em alta: o que a ciência diz sobre a decisão de remover os implantes mamários

“`json {“titulo”: “Explante de silicone em alta: o que a ciência diz sobre a decisão de remover os implantes mamários”, “resumo”: “A procura por explante mamário cresceu nos últimos anos, impulsionada por preocupações com sintomas sistêmicos e segurança dos implantes. Veja o que dizem ISAPS, ASPS e a literatura médica sobre indicações reais, riscos e a diferença entre decisão compartilhada e alarmismo.”, “corpo_html”: “

A cirurgia plástica tem ganhado espaço crescente no noticiário brasileiro — reportagens recentes destacam, por exemplo, o aumento de procedimentos estéticos também entre homens, refletindo uma atenção cada vez maior do público a temas que antes circulavam apenas em consultórios. Esse holofote maior sobre a especialidade também trouxe à tona um assunto específico: o explante de silicone, ou seja, a remoção de implantes mamários, motivado por relatos de sintomas sistêmicos, contratura capsular ou simplesmente mudança de preferência estética. É um tema que merece ser tratado com base em evidências, não em medo.

Em junho de 2023, a ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery) e a Aesthetic Society, por meio do seu braço de pesquisa (ASERF), publicaram um posicionamento conjunto sobre o aumento mundial de pacientes solicitando explante por sintomas atribuídos aos implantes — o chamado Breast Implant Illness (BII), também referido na literatura como ASIA ou SIS. O documento é claro em um ponto: essa síndrome é um diagnóstico de exclusão, ou seja, só deve ser considerada depois de descartadas outras causas médicas para os sintomas relatados. As sociedades também reforçam que não há evidência científica que sustente a afirmação de que a capsulectomia en bloc (remoção da cápsula junto com o implante) seja obrigatória para a melhora dos sintomas. Na minha experiência, observo que esse é exatamente o ponto em que a conversa com a paciente precisa ser mais cuidadosa: investigar antes de operar, e não transformar a cirurgia em promessa de cura para sintomas que ainda não têm causa estabelecida.

Outro tema que frequentemente aparece junto ao explante é o BIA-ALCL (linfoma anaplásico de células grandes associado a implante mamário). Um consenso de especialistas publicado na revista Plastic and Reconstructive Surgery, em setembro de 2024, pela American Association of Plastic Surgeons, afirma que não há associação entre BIA-ALCL e implantes de superfície lisa, e que a remoção profilática do implante contralateral texturizado é recomendada apenas em casos já confirmados de BIA-ALCL unilateral — devido ao risco de doença bilateral oculta, estimado entre 1% e 3%. A própria ASPS detalha que o risco estimado ao longo da vida de desenvolver BIA-ALCL varia de 1 em 2.207 a 1 em 86.029 mulheres com implantes texturizados, sem casos confirmados associados exclusivamente a implantes lisos. Na minha prática, observo que esse dado ajuda a colocar o risco em perspectiva: é real, é algo que discuto com toda paciente com implante texturizado, mas não justifica recomendar remoção em quem não tem diagnóstico confirmado nem sintomas compatíveis.

Esse ponto também foi reforçado pela própria ASPS em fevereiro de 2024, em resposta pública à recomendação da AAPS sobre remoção de implantes texturizados. A sociedade esclareceu que, com base nas evidências disponíveis, segue a orientação da FDA de não recomendar a remoção de implantes em mulheres assintomáticas — mas apoia a decisão compartilhada quando a paciente deseja explantar por qualquer motivo, incluindo razões estéticas ou de conforto pessoal. Esse é um aspecto que considero central na condução desses casos: a vontade da paciente de remover o implante é legítima mesmo sem uma indicação médica estrita, e cabe ao cirurgião explicar riscos e expectativas com clareza, não impor nem negar o procedimento.

E os riscos existem, como em qualquer cirurgia. Material oficial da ASPS voltado a pacientes lista possíveis complicações do explante mamário: hematoma, seroma, assimetria, alterações de sensibilidade, necessidade de revisão cirúrgica e resultado estético que pode não corresponder ao que a paciente imaginava antes da remoção — especialmente em quem já teve os implantes por muitos anos e apresenta alterações de pele e tecido mamário. Na minha experiência, observo que essa conversa sobre o “depois” costuma ser subestimada: muitas pacientes focam na remoção do implante como solução de um problema, mas a avaliação sobre a forma da mama remanescente — e se há ou não indicação de mastopexia associada — é parte essencial do planejamento.

O explante de silicone é uma decisão que pode ser médica, estética ou pessoal — e todas essas razões merecem escuta. O que a literatura científica reforça, de forma consistente entre ISAPS, ASPS e os consensos publicados em periódicos indexados, é que a condução precisa ser baseada em investigação individualizada, sem promessas de melhora de sintomas sem comprovação e sem indicar procedimentos mais extensos do que o necessário sem evidência que sustente essa escolha. Cada caso tem uma história clínica própria, e é a avaliação presencial — com exame físico, histórico e, quando necessário, investigação complementar — que permite construir uma decisão segura e informada.

Dr. Filipe Canal Moura
CRM-ES 10568 | RQE 10249

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