Desinformação nas redes sociais sobre cirurgia plástica: riscos reais para pacientes
A desinformação sobre cirurgia plástica nas redes sociais deixou de ser um problema apenas de imagem e passou a ser reconhecida como uma questão de segurança do paciente. Uma revisão sistemática publicada na Aesthetic Surgery Journal em janeiro de 2026 reuniu evidências mostrando que conteúdos online sobre procedimentos estéticos e dermatológicos frequentemente distorcem expectativas de resultado, minimizam riscos cirúrgicos reais e podem contribuir para danos psicológicos ligados à percepção de imagem corporal.
Na prática clínica, esse tipo de achado tem um significado concreto. Pacientes que chegam ao consultório influenciados por vídeos curtos, antes-e-depois editados ou depoimentos sem contexto médico costumam ter uma ideia de resultado desconectada da realidade anatômica e cirúrgica do próprio caso. O problema não é apenas estético — é também de segurança, porque expectativas distorcidas tendem a minimizar, na cabeça do paciente, riscos que são absolutamente reais em qualquer procedimento cirúrgico.
Na minha experiência, observo que boa parte das dúvidas trazidas em consulta hoje já vem “pré-formatada” por conteúdo de redes sociais, o que exige um tempo adicional de explicação técnica antes mesmo de discutir a indicação cirúrgica propriamente dita. Não vejo isso como um problema do paciente, e sim como um reflexo direto do que a revisão da Aesthetic Surgery Journal descreve: a informação de qualidade sobre cirurgia plástica ainda compete, em volume, com conteúdo sem respaldo científico.
Esse cenário se torna especialmente relevante quando olhamos para o volume crescente de procedimentos estéticos no mundo. Segundo o Global Survey 2024 da ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery), foram registrados mais de 17,4 milhões de procedimentos cirúrgicos e 20,5 milhões de procedimentos não cirúrgicos globalmente, com a blefaroplastia superando pela primeira vez a lipoaspiração como cirurgia mais realizada no mundo. Quanto mais pessoas buscam esses procedimentos, maior a exposição a conteúdo online — e, consequentemente, maior a chance de decisões sendo tomadas a partir de informação não verificada.
Na minha visão, esse dado reforça algo que considero importante repetir sempre em consulta: número alto de procedimentos realizados no mundo não significa baixo risco individual, e cada caso segue sendo avaliado dentro do seu próprio contexto clínico, histórico de saúde e expectativa realista de resultado. Popularidade de um procedimento nas redes não substitui avaliação médica presencial.
Diante disso, minha orientação de sempre é buscar fontes com respaldo científico — sociedades médicas reconhecidas, periódicos indexados, o próprio médico responsável pelo caso — antes de formar qualquer expectativa sobre um procedimento estético. A consulta presencial continua sendo o único momento em que é possível avaliar histórico de saúde, anatomia individual e riscos específicos de cada paciente, algo que nenhum conteúdo de rede social consegue reproduzir.
Dr. Filipe Canal Moura
CRM-ES 10568 | RQE 10249