Medicamentos GLP-1 e abdominoplastia após grande perda de peso: o que diz a literatura sobre riscos cirúrgicos
O uso de medicamentos GLP-1, como os popularizados sob a marca Ozempic, mudou significativamente o perfil de pacientes que chegam ao consultório do cirurgião plástico. Perdas de peso expressivas e relativamente rápidas geram excesso de pele e tecido, principalmente na região abdominal, e isso tem impulsionado a procura por procedimentos reparadores como a abdominoplastia e a panniculectomia.
Esse cenário não é isolado. Segundo o relatório anual da ASPS (American Society of Plastic Surgeons), o crescimento de procedimentos associados ao uso de medicamentos GLP-1 já é uma tendência documentada nos Estados Unidos, incluindo aumento em cirurgias e resurfacing de pele relacionados à flacidez decorrente da perda de peso. No Brasil, dado levantado pela SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica) com base no censo 2024 da ISAPS mostra que o país está entre os líderes mundiais em volume de cirurgias plásticas, o que reforça que esse movimento também é uma realidade local, não restrita a outros países.
O que mostra o estudo publicado na Plastic and Reconstructive Surgery
Um estudo publicado na Plastic and Reconstructive Surgery, periódico oficial da ASPS, avaliou especificamente pacientes em uso de medicamentos GLP-1 submetidos à panniculectomia após perda de peso maciça. O achado central é que o uso desses medicamentos apresenta efeitos mistos sobre o risco de complicações cirúrgicas — ou seja, não há um padrão único de piora ou melhora, e sim variações que dependem de outros fatores clínicos do paciente.
Na prática, isso significa que o uso de GLP-1 não deve ser interpretado, isoladamente, como um fator que automaticamente aumenta ou reduz o risco cirúrgico. O que a literatura sugere é que a avaliação precisa considerar o quadro completo do paciente: tempo de uso do medicamento, estabilidade do peso, estado nutricional, qualidade da pele remanescente e eventuais comorbidades associadas ao processo de perda de peso.
O que observo na avaliação desses pacientes
Na minha experiência, observo que pacientes que chegam à consulta em uso de GLP-1 frequentemente têm expectativas muito focadas no resultado estético final, mas o planejamento cirúrgico responsável exige uma etapa anterior: entender se o peso já está estabilizado, se houve perda de massa muscular relevante e como está a qualidade do tecido que será manipulado durante a cirurgia. Esse levantamento, alinhado ao que o estudo aponta sobre efeitos mistos no risco de complicações, reforça que a decisão sobre o momento cirúrgico ideal não pode ser padronizada — cada caso demanda uma leitura individual.
Também é algo que discuto com frequência no consultório: a continuidade ou suspensão do medicamento no período perioperatório é uma decisão que deve envolver o médico responsável pela prescrição do GLP-1 em conjunto com a avaliação cirúrgica, já que fatores metabólicos e nutricionais interferem diretamente na cicatrização e na recuperação pós-operatória.
Avaliação individual antes de qualquer indicação
O crescimento de procedimentos corporais reparadores associados à perda de peso é um movimento real e documentado por sociedades como ASPS e SBCP. Ainda assim, a decisão sobre indicar ou não uma abdominoplastia ou panniculectomia em pacientes em uso de GLP-1 depende de uma avaliação clínica individual, que leve em conta o histórico de perda de peso, exames laboratoriais e o momento adequado para a cirurgia.
Se você está em uso de medicamentos para perda de peso e avalia a possibilidade de uma cirurgia reparadora, o caminho responsável é uma consulta presencial, onde histórico clínico, exames e expectativas possam ser discutidos com atenção.
Dr. Filipe Canal Moura
CRM-ES 10568 | RQE 10249